A vida também precisa de vazios.

Na psicanálise, o vazio não é necessariamente um problema a ser resolvido, mas um lugar a ser escutado.

Muitas vezes expresso na frase "estou sentindo um vazio", esse lugar da falta também nos constitui como sujeitos e pode impulsionar nossos desejos, escolhas e movimentos pela vida quando encontra espaço para ser escutado no divã.

No cotidiano, é comum tentarmos nos preencher de compromissos, ruídos, distrações, relações ou excessos justamente para evitar o encontro com aquilo que pulsa dentro de nós. Mas o que é abafado não desaparece; apenas encontra outras formas de se manifestar, ora como sintoma, ora como angústia.

O desafio não é eliminar o vazio, mas escutá-lo. Porque é nele que também habitam o desejo, a saudade, a criatividade e a possibilidade de nos encontrarmos conosco mesmos.

Afinal, nem toda falta precisa ser preenchida. Algumas precisam ser compreendidas.

A natureza também nos ensina que a vida precisa do vazio. Basta observar a trajetória da borboleta: em seu vir a ser, ela atravessa uma profunda transformação. Há um tempo de recolhimento no casulo, um espaço de aparente silêncio, mas de intenso desenvolvimento.

É nesse processo que a lagarta deixa de ser quem foi para tornar-se algo novo. Nós também precisamos, em alguns momentos da vida, sustentar nossos próprios casulos, olhar para dentro e permitir que algo em nós se transforme.

E é com isso que precisamos nos atentar: em que momentos da vida preciso me recolher para escutar o meu vazio?